18 Agosto 2009

Ensaiando: 'Raiai! - O Retorno'

- ...é sério, coisinha, eu daria qualquer coisa pra me armar com você.
- Ah é? Daria o cu?
- Se você me der o seu, eu dou mesmo!
- Tá me achando com cara que dou o cu?
- Não, não... mas minha cara tá entregando, é?

25 Maio 2008

Adianta o lado aê, q senão não vai dar tempo

Vumbora embora logo, porra
Vumbora logo meu irmão
Umbora bicho
Umbó logo
Bó véi
Bora

.

02 Março 2007

Jorge

Antes que o lembrassem que seu nome era Jorge já queria ser chamado assim: Jorge.

Já teve sonhos terríveis com pessoas lhe tratando por Francisco, Antônio e até Joaquim. Mas, enfim, Jorge.

"Era o que eu queria. Eu já te dizia. Só Jorge, mais nada".

No quarto do Juliano Moreira¹ agora dorme tranqüilo Jorge, filho de outro Jorge da cara chupada.

Sereno, quieto, dorme agora, mas porém sedado; a porta está trancada. No sonho uma voz distante lá de longe o chama, acho que o provoca: > Junior <. O sono finda antes da hora e ele chora agora a noite que não acaba. .
.
.
¹Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira

06 Maio 2006

Capítulo q eu me lenho por causa de uma nica

Uma nica de um real no chão, dando um molão pra mim... Foi a primeira vez q eu achei alguma coisa de valor no meio da rua, mas se quer saber eu preferia nem ter encontrado, avistado essa disgramada. Até quando eu tenho sorte, o azar inventa uma desculpa pra poder fazer parte da minha festa... e fez! Eu já deveria saber... A história q narro a seguir aconteceu há três anos...
Tava comendo uma besteirinha na parte de cima da Estação da Lapa e fiquei de olho nela... A princípio, uma coisa brilhante qualquer... ¿O q poderia ser? ¿Uma pedra redonda e metálica? Acho q não... ¿Uma lente de contato usada? Não... ¿Um cachorro morto? Não. ¿Uma moeda? Nããão! ¿Será mesmo? Sim!!!

Estava ela lá, lá ela (!), na parte de baixo, na pista ao lado das escadas q descem pro subsolo. Joguei o resto do mixto no lixo e desci correndo com o refresco de imbu derramando. Nem precisava correr, mas... Cheguei e olhei ela de cima dos meus 1 metro e 80 e poucos. Ela era ela mesma, a bendita nica causadora de um grande problema nesse "agradabilíssimo” final de dia. Era só o que me faltava.

Belezzz... Aproveitei e fui direto pra fila do meu buzu, feliz da vida. (Um real pode ser pouco – ou parecer pouco – mas prum cara azarado como eu, aquele realzinho representava mais q uma pequena quantia em dinheiro. Era ela um divisor de águas na minha história. Eu, a partir daquele dia, haveria de subir na vida pois deixava pra trás todo o azar q insistia em me perseguir, finalmente). Antes de ir lanchar a fila já era grande, imagine agora. Pra piorar, a mizera do ônibus tava demorando pa caralho, mais atrasado q nos outros dias.

Dez minutos mais e ele finalmente chegou, junto com um coroa chato q só a porra.
– Ô pessoal... em primeiro lugar boa tarde, quer dizer, boa noite ¿né?... ¿será q vocês poderiam ajudar com uma pequena contribuição-zinha esse pobre senhor q aqui vos fala? – chegou até falando bonito o psicopata. Continuou o coroa sua falação:

– Eu vim do interior minha gente, lá da Saubara... Cês sabem q é um pouquinho longe e fica um pouquinho difícil, principalmente pra mim e pra minha família q não tem dinheiro nem pra comer, se deslocar praqui pra Salvador todo dia... mas como Deus, cês sabem, escolhe a hora e o momento certo de nos colocar à prova, temos é q ser fortes... então, vir pra cá todo dia, passar o dia todo sem comer, pra daqui uns tempo voltar a ver minha filha feliz e saudável, é o q mais me dá força pra lutar. Qualquer dez centavosinho serve, gente...

Coloquei a mão dentro do bolso... A nica parecia fugitivo da polícia: “Não me entregue, não me entregue, por favor!” Tô brincando. Não é uma desculpa antecipada pra você, q vai me julgar depois.

Continuou o coroa, já arrecadando o dinheiro do pessoal do final da fila, vindo, vindo... logo logo chegaria em mim. “Decida-se!”

– Eu tenho q comprar esses remédios aqui ó – disse a catraca ambulante q parou no meio da fila pra esperar uma senhora achar o dinheiro em sua bolsa: “¿Onde é q eu coloquei aquelas moedinhas?” Mostrava um papelzinho com os nomes dos remédios – ... minha filha... tem 7 aninhos e tá internada faz duas semanas, hoje... Caliane, com “K”.

Óbvio q eu pensei em doar, dar aquela bendita nica de um real q tinha achado, pro velho. Talvez até tenha sido essa a causa, a “missão”, motivo da aparição dela em minha vida, afinal, eu nem tava tão precisado assim. Pensei uma, duas, três vezes em tirá-la do bolso, mas não tirei. Não por vergonha, muito menos por ambição... ah, sei lá! Preguiça mermo. Também, convenhamos: essa moeda acabara de se transformar num amuleto da sorte... E eu vi tanta gente dando dinheiro pro cara...

O tempo q levei para chegar à porta do buzu, foi o tempo q ele levou para chegar até a minha cara de pena e o meu saculejar de miolos. “Tô zerado... mal mermo”.

Quando tava pra botar o pé esquerdo no primeiro degrau daquela joça, olhei pro lado e vi um maluco fazendo uns movimentos estranhos nos fundos da mulher q tava atrás de mim, subindo ao meu lado naquele momento. Quando olhei direito, o cara tava com a mão dentro da mochila da moça. O maluco tava tão azoado q nem percebeu q eu tava de olho em toda a ação dele. Pegou uma bolsinha menor lá dentro e tirou rapidinho, nas intoca, dinheiro, papel de queimado, nota fiscal das Americanas, vale transporte, tudo q tinha dentro da superlotada bolsinha. Colocou tudo no bolso direito, num movimento bem lento e cuidadoso, antes de fechá-la e colocá-la de volta na mochila, a qual acabou não se preocupando em fechar totalmente. – Miserave! – Vi tudo, de camarote, mas não movi uma palha. Nisso ele virou-se de lado e encostou as costas no vidro ao lado do cobrador, como quem ia traseirar.

Como disse, fingi q nada tinha visto, passei na frente dela e procurei um lugar pra segurar. Fiquei perto dali mesmo, dois bancos depois do cobra.

A moça passou apressada pela borboleta, sem saber q tava sem um puto no bolso. Abriu a bolsa pra pegar o vale ou a grana pra pagar a passagem. Puxou ela (a bolsa, quase uma mochila) pra frente do corpo e logo estranhou encontrá-la entreaberta. Puxou rápido a bolsinha de dentro e, sem mentira nenhuma, a muliquinha gelou, ficou congelada, paralisada, inerte. [Pô – inerte – agora eu falei bonito, ¿num foi não?] É. Aí ela se aquetou por alguns segundos, imagino q com o coração apertado, acelerado e com um vazio no peito maior q o Barradão em dia de jogo do Vitória... e q vazio!

Mexeu no fundo da mochila pra se certificar, ter certeza de q acabara de ser roubada. Olhou pros dois lados pra ver se encontrava alguém conhecido, olhou pro cobrador... acho até q a vi sussurrar um “¿E agora meu Deus?”, olhar pro horizonte de cimento, pensativa, e deixar uma lágrima teimosa escorrer sobre o seu rosto pálido. [Tô brincando, claro. Mas q isso transformou ela numa bomba prestes a estourar, ah isso sim... (¿)E não é que estourou(?), e bem em cima de mim! Mas bem q eu mereci, na moral. – Se não estiver com pressa, fica aí pra saber como foi o trágico final dessa história...]

Bom, o q acontece a seguir é um misto de burrice, arrependimento e mal-entendido. Espia a porra...

A disgramada continuou queta, talvez esperando q o cobrador esquecesse o dinheiro do transporte q ela teria de dar. Não seria muito difícil isso acontecer dado àquele fluxo ininterrupto de pessoas q adentravam o diacho do ônibus naquela Estação da Lapa, sexta-feira, antevéspera de Natal, às seis horas da tarde (horário de verão). Mas como sempre, não foi dessa vez. O cobra olhou pra ela e, sem abrir a boca, lhe pediu o dinheiro da passagem.

A mulher já ia se manifestar. Explicar o q tinha acontecido, pedir pra ele esperar um pouco mais, não sei; eu só sei q eu levantei meu braço – agora q tô lembrando, passa um filme inteirinho na minha cabeça – estendi minha mão e com o dedo indicador toquei o ombro da baixinha q já estava com a boca aberta, preparada para palestrar a um cobrador atarefado e impaciente com o smart card de uma menina do Central, q teimava em não pegar.

– Toma aqui ó moça, pra senhora pagar a passagem. – foi o q eu falei ao me manifestar, me solidarizar com a baixinha, lhe estendendo com a outra mão a minha “nica da sorte”, semicausadora de toda essa confusão q ainda estava no seu intróito. [Porra, – intróito – agora eu me superei! Pra você não precisar pegar o dicionário, intróito significa começo, inicio, ¿beleza?]

A minha intenção era a melhor de todas, das mais nobres, no momento em q tentava me redimir da “anticaridade” com aquele pai de família necessitado, coitado, q tava lá precisando de uma ajuda e eu me recusei a atendê-lo. Um pecado! Como prova de q eu realmente tinha me arrependido daquela omissão, o fato de q eu nem iria pedir os dez centavos de troco da passagem, q na época só custava 90 centavos.

A baixinha, toradinha, olhou pra mim e como q não entendesse a minha atitude fez uma careta... – não. – Aliás, não exatamente uma careta. Ela olhou pra mim, olhou pra moeda e franziu os olhos... isso mesmo: franziu os olhos.

Imaginou algo por um segundo mais, puxou a nica da minha mão e me deu uma bolsada, ou melhor, mochilada no meio da cara. Rapaz, a muliquinha meteu-lhe a miséria da bolsa com tanto gosto q, meu irmão, eu senti espelho quebrar, blanche espedaçar, batom abrir e até o celular da mulher tocar quando deu a segunda porrada no pé do meu ouvido. É sério sacana! O celular dela tocou mermo, mas ela não tava nem aí.

– Ladrão, safado... seu discarado, vagabundo, maconheiro sem vergonha! – ela gritava histérica enquanto tampava-lhe o pau em mim.

Não gostei muito da forma preconceituosa q ela me chamou de maconheiro. Ela devia saber q poucos são os maconheiros e/ou sacizeiros q roubam ou ficam por aí vagabundando – de safado, discarado e sem vergonha, tudo bem, todos nós temos ou somos um pouco. Só q eu não vi foi droga nenhuma. Deu um nó na minha cabeça q nem reação pra tentar explicar o fato eu tive. Mas também, não dava não. Até provar q Chico é Francisco...

Parti a mil, abri o gás, piquei a mula, casquei fora – até hoje não sei como consegui sair daquele buzu vivo – e foi tão rápido q nem devem ter notado a cor da camisa q eu usava: rosa. Ela, com certeza não percebeu... Teria me chamado de viado também.

Subi pro Piedade pra q a galera não marcasse a minha cara e fiquei lá até dar o tempo desse buzu seguir viagem.


de Raiai! 1

25 Março 2006

Che?! (ou Todo Metralhado)

– Eu tô doida pra comprar uma camisa de Che Guevara. Essa sua é massa, velho. ¿Comprou ela-onde?
– Na Calçada.
– Che é massa.
– ¿Ele foi o quê mesmo?
– Ah, não sei direito também não. Acho q foi um revolucionário, sei lá. Mas eu gosto dele.
– É. Eu acho q vou botar uma tatuagem dele no peito.
– Bote mesmo.
– Se eu não colocar a dele, vou pôr uma de Jesus Cristo.
– Ah, Jesus! Pára!
– ¿É né?... Sei lá...
– Bota a de Che mesmo, rapaz. Essa foto mesma aí da sua camisa vai ficar de se lenhar! Ele olhando pra cima assim... Vá por mim.
– É... taí! Você até me deu uma idéia, agora.
– ¿Q idéia?
– Vou botar a cara de Che, olhando pra cima, aqui na barriga e a de Jesus no peito.
– Vai botar Che olhando pra Jesus... ¿é isso?
– É. E Jesus olhando pra ele.
– Ai, q gay!
– ¿Você acha?
– Brega e gay.
– ¿Por q, gay?
– Mas tá! Vai botar os dois se olhando, no seu peito...
– ¿E Che era boiola, por acaso?
– Sei lá. Mas vai q era! Vão dizer q você faltou com o respeito a Jesus. Heresia, bróder. É melhor nem arriscar.
– ¿E o q é q eu faço?
– Ah, bota só Che, no peito.
– Não, já sei! Vou pôr Jesus no peito e Che nas costas.
– Vai botar Che Guevara nas suas costas!
– Vou ¿por quê?
– Por nada, mas saiba q quando a galera ver a foto de um viado atrás de você, vão achar q você também é... Se ainda fosse na frente, dava até pra explicar.
– É, então é melhor deixar pra lá. Vou colocar só a de Jesus mesmo, q ninguém pode dizer nada.
– Ah, q é isso. Aí também é besteira, velho.
– Besteira! Besteira pra você. Ainda mais agora q eu soube q Che Guevara é biba, ou era... Não quero nem conta mais.
– Ah, pára!... Não é pra tanto.
– Tá, mas eu não quero mais saber de Che e acabou. – Dando de ombros, fala com um certo sarcasmo: – Che... Che “quer-vara”.
– Che “quer-vara”. Raiai, viu. Como você é besta – ela diz, rindo do amigo.
– Tá. Sou besta, mas não bicha. / E por falar nisso, pode ficar com minha camisa. – tira e entrega à amiga – Faça bom proveito...
– Tudo bem. Acho q lá em casa tava precisando de um pano de chão novo, mesmo. Valeu então – comenta, debochando.
– ¿Cê vai pro show de Pitty, hoje, no Aero? – ele pergunta.
– Lógico! Não perco por nada nesse mundo.
– Então beleza. A gente se vê lá. Leve umas amigas q eu vou com uns colegas meus da facu.
– Beleza. Até a noite então, brôu.
– Até a noite, gatinha... – despedindo-se, de súbito ocorre-lhe uma dúvida, incerteza. Preocupado, volta e indaga a amiga: – Peraí, peraí! Vem cá... me diga aqui uma coisa: ¿E Jesus?...
– ¿O q é q tem Jesus?
– Ué, cê tá ligada q esses artistas são meio assim... ¿sabe como é, né?...
Ela pára, pensa. Tenta entender a insinuação... Força o pensamento. A fumaça sobe. Enfim, se toca e após alarma:
– Nãããooo! Jesus não... ¿Tá louco?! – responde, repreendendo o amigo, enquanto masca um big big de maçã, já dessaborido, e ajeita o enorme piercing q atravessa o seu supercílio esquerdo. Finalmente, conclui: – Ali você pode confiar, bróder. Vá por mim... Vá por mim.
E se vão.

Sociedade

“Um homem deu entrada na emergência do Hospital Geral do Estado com treze perfurações de bala nas regiões do tórax, cabeça e membros inferiores, tendo ainda uma faca de uso caseiro encravada nas suas costas.

O jovem, de cor parda, aparentando ter entre 20 e 24 anos de idade, ainda não foi identificado e encontra-se em estado grave na unidade de terapia intensiva desta casa de saúde.

Ele foi encontrado na estrada do Derba por populares q residem na área, localizada próxima aos bairros de Águas Claras e Periperi, em Salvador.

A Polícia trabalha com a hipótese de o rapaz ter tentado cometer o suicídio.

Rádio Repórter A4, direto da Emergência do HGE para a redação”.

Rádio Sociedade da Bahia, 24 horas no ar. Aqui você fica sabendo de tudo! / Nós estamos sempre no ar para melhor informar! So-ciedade! [tanran!].


* de Raiai! 4

16 Março 2006

Use sua imaginação

– ¿Como foi, menina?... Conta logo! Conta, vai!
– Calma, Amanda! Oxente! Tá doida ¿é? Peraí q eu já vou contar tudo, direitinho. Xô colocar só a água do arroz no fogo e volto. Pera mais um pouquinho.
(...)
– Ai, vai, conta logo, menina! ¿E aí, rolou ou não rolou?
– ¿O q é q você acha?
– Ah, não sei. Pela sua cara de felicidade, acho q... Ah, não sei! Pára de fazer suspense e conta logo, sua besta.
– Tá bom. Eu tava...
– ¿Q horas q cê chegou na casa dele?
– Duas e meia. Eu tava passando pela frente da...
– ¿A mãe dele tava aonde?
– Ah! ¿Cê vai deixar eu falar ou não? Se eu me retar eu não conto mais nada ¿viu? Calma q eu já vou chegar nessa parte.
– Tá, prometo q vou ficar caladinha, quetinha.
– Então tá. Eu tava só de passagem pela rua dele. Mainha mandou eu comprar uns tubos de linha pra máquina. Tinha um prazo de entrega de uns vestidos pra hoje e a linha preta tava pra acabar. / Dei uma ajeitada no cabelo, botei minha saia de periguete, um espanta-nigrinha básico e fui... Claro q eu sabia q ia passar pela frente da casa dele ¿né? Tinha um armarinho aqui perto q...
– Sim, essas coisas eu já sei. Eu quero saber o q rolou na...
– Calma, menina! Eu nem entrei na casa do bofe ainda e você já tá assim. / Tá bom. Vou tentar adiantar a fita.
– Daqui a pouco sua mãe chega aí e você não vai ter me contado nada ainda.
– Certo, vou tentar ser mais objetiva. / Cheguei na frente da casa dele. Tudo fechado. Vim, devagar, quase parando... De repente a velha, Dona Edite, saiu da casa. Adiantei um pouco os meus passos e esperei até ela sair e fechar o portão.
– ¿Você falou com a véia?
– Não. Claro q não ¿né? Mas foi nessa hora q o diabinho cantou a oportunidade única de cometer essa loucura, bem no meu cangote.
– Aí cê foi lá, chamou ele no portão e...
– Não, calma. Antes de ir na casa dele, eu fui até o armarinho, correndo, e comprei as linhas q Mainha pediu. / Tava tão apressada q esqueci até de pegar o troco com Dona Alzeni. / Vim correndo também, voltando pela rua dele, de novo com o diabinho, e agora o anjinho também, tentando me convencer a fazer ou não fazer aquilo.
– Aquilo, ¿o quê?
– Ué, ‘aquilo’... Use sua imaginação.
– Ahhh, claro! Então rolou, ¿não foi, sua discarada?
– Não sei. ¿Q é q cê acha?
– Eu acho q você tem de contar o resto dessa história logo, q senão eu vou morrer de tanta curiosidade.
– O diabinho me deu a dica: finge q vai comprar um geladinho e quando ele vier entregá-lo, você agarra ele(!) e o leva lá pra dentro.
– ¿E você fez isso?
– Não. Fiquei foi lá uma meia hora gritando: “Me despache! Me despache!”
– Oxe! ¡¿E ele não veio te atender?!
– Óbvio q veio. Só q demorou ¿né?, minha filha. Quase q eu desistia de chupar o geladinho dele. [risos]
– Viche! Como você é podre!
– Ahn! Você não viu nada ainda.
– Tá bom, sua badogueira. Continue.
– Aí ele veio: “Tem de umbu, acerola, tamarindo e amendoim”. Aí eu perguntei pra ele se tinha de manga. Ele disse q não, q só tinha desses q ele tinha acabado de falar. Aí eu perguntei pra ele, qual dos cinco era o mais gostosinho, olhando pras partes dele.
– Sério!
– Mas tá!... / Ele fez q não entendeu e perguntou o q é q eu tinha acabado de falar, já me olhando de um jeito q, ai... – olha pro teto e faz q delira. – Eu repeti. Ele fingiu q não ouviu, mais uma vez, e veio até o portão. Aí eu falei pela última vez. Então ele disse: “¿Quer entrar pra provar um por um, direitinho?”
– Mentira q ele não falou isso.
– Falou sim, ¿quer apostar?
– ¿Apostar como?
– Ah, sei lá. Deixe eu terminar de contar a história logo. / Nós entramos. Ele já foi logo tirando a camisa.
– Não acredito! Ai, aquele menino é muito gostosinho! ¿E você fez o quê? Foi logo tirando a sua roupa também...
– Não. Claro q não. Eu também não sou tão fácil assim. ¿Tá achando q eu sou o quê? / A gente começou a conversar, sentados no sofá, civilizadamente. / Ah, ele perguntou de você.
– ¿De mim?!!
– Sim. Eu também estranhei. Ainda perguntou sobre as meninas de lá da sala... Aí perguntou se eu ainda tava namorando com Wendel. Aí eu disse q jamais q eu ficaria sozinha, na casa de um menino q eu fiquei a fim desde quando o vi pela primeira vez, se ainda estivesse namorando.
– Ahh, deixe de mentir q você não ia ter coragem de dizer isso.
– Tenho e disse! Disse sim! E foi aí q ele me agarrou. Começou a passar a mão pelo meu corpo. Veio por cima, aí foi descendo, descendo aquela mão-zona enorme, até...
– Até ¿o quê?
– Ah, use a sua imaginação.
– ¿Você deixou ele passar a mão em você todinha, já no primeiro amasso?
– ¿E daí, qual o problema?
– Nada. É q eu acho isso meio estranho; essa liberdade toda.
– Ah, claro! Você ainda é virgem, toda tirada a certinha, filhinha da mamãe. Toda Sandy! Eu não. Eu sei muito bem curtir minha liberdade. E como é bom ser livre, e ter uma mão de homem, livre, passeando sobre o seu corpo, e dentro da sua calcinha, ai, ai, você toda molhad...
– Ai, pára com essa nojentice! Deus q me livre!
– Ô, ¿então você não quer mais saber tudo q aconteceu não?... Então tá bom. Não vou contar mais nada. Aliás, é íntimo demais pra você saber.
– Não, não faça isso não!... E eu quero saber tudo sim, nos mínimos detalhes... Aliás, nem precisa de tantos detalhes assim... quer dizer, precisa sim. Con-ta lo-go!
– Xô terminar de fazer o arroz q eu volto pra dizer o resto.
– Tá, mas vá rápido q eu já tô explodindo de tanta curiosidade.
(...)
– Vamo lá. Vou contar logo os finalmentes, pra mandar você embora logo daqui, sua insuportável! / Quando eu comecei a arranhar as costas dele, no meio daquele beija daqui, chupa dali, eu resolvi abrir minhas pernas de uma vez. Quando ele meteu o dedo na minha xereca...
– Ai, q horror! Como você é baixo astral, menina!
– Horror o quê, tabaroa! Foi maravilhoso! Ele começou a rodar o dedo dentro de mim e com a outra mão foi abrindo o zíper de sua calça, e me puxando pra mais perto dele... quando ele ia meter, eu mandei ele parar.
– ¿Por q cê fez isso?
– Ué, porque ele não tinha colocado a camisinha ainda.
– ¿Foi isso q fez você parar?
– Claro! ¿Cê é doida é menina? Sem proteção, nem morta!
– Mas ¿e aí, o q você fez?
– Eu pedi pra ele colocar a camisinha, só q ele disse q tava sem nenhuma em casa.
– Sim, ¿e daí?
– Daí q na casa dele vende geladinho...
– ¿Como assim? Não entendi.
– Ah, Amanda!... Use sua imaginação.


* de RAIAI! 2
** Vencedor do I Concurso CEFET-BA de Literatura 2005 (Categoria: Prosa)

15 Março 2006

O Sexto Sentido

Pablo vê gente morta. Afirma q quando começou a ver e ter contato direto com elas, tinha medo; acendia velas. Revela ainda hoje sentir calafrios e, só, presenças estranhas. Ficar remoendo, na cabeça, besteiras, sempre acontece; se ver espantado consigo no espelho também, é de praxe. As velas se fazem parceiras nas noites de prece. Se apagam na hora q chegam os mortos da noite. De dia é mais fácil e mais claro, sem essas nuances: do morto coberto, das sombras, das ‘luzes queimadas’.
Vir ver quando vinha mais outro no turno dos outros, lhe fez perder mais esse medo e deixar de besteiras. Lhe fez deixar os pesadelos ir para outros monstros: dinheiro, a falta do mesmo e a saúde da velha.
A velha era a mãe, dona Martha, de crenças estranhas. Pensava ou achava q era vidente e sensitiva. Com a idade lhe veio a catarata e a deficiência auditiva, mas sempre sabia e sentia quando seu Pablo, chegado, entrava e fechava a porta.
O Pablo, com um ano no trampo, cansara-se: “chega!”. Chega de ver tanta desgraça, por vil recompensa. Pablo sai de casa tão cedo e tão cedo não volta. Só volta tão tarde q nem dona Martha agüenta. (Por vezes só vê o filhote no fim da semana. Por vezes não vê, pois não enxerga direito, lamenta).
Infeliz no ofício o Pablo se viu mais ainda, quando teve – por pressão – de fazer uns serviços a mando... mutreta de um tal diretor q desviava umas coisas: uns pesos estranhos, nuns sacos escuros, de noite.
Um dia abriu curioso um saco daqueles... assustou-se e viu-se caído numa grande enrascada – “Meu Deus!” – relutou mas calou-se e envolveu-se na imensa roubada – “Fodeu!”.
Revoltado, escreveu uma carta, em tom de mistério, o Pablo. E o mistério quem quis desvendar foi um tal jornalista, de A Tarde. / Jornalista e dono da fonte, foi logo querendo saber algo a mais, e os demais mil “detalhes, rapaz!” do rapaz da Saúde, nascido em Seabra.
“Se abra, meu bom, vai, me conta!”, bem queria contar pelo q (mal) passava. Afetado, porém, relatou no instante somente as mágoas cultivadas... e as longas jornadas, os maus pagamentos, “isso é, quando eles pagavam!”
No Nina, onde trabalhava, manteve segredo o tempo inteiro. Segredo pros q não sabiam ou não se envolviam por medo ou desprezo. Desprezo com a grana tão pouca, a tarefa tão árdua, o tempo e o perigo.
Pensou – e pensou duas vezes! – em contar essa história; seu caso era outro. O Pablo denunciaria por ser, dentre todos, o forçado, o mais fraco – o lado. E do outro lado da linha, o caça-notícias lhe deu garantias: “...¿Fechado?”.
Por fim, sim, fecharam acordo: marcaram o encontro na casa da “vítima”.
Mas antes, esclarecimentos, acerca do caso, do acerto, do acordo:
O Pablo achara no chão, na semana dos fatos, um número e um nome. Um número de telefone, com o nome do cara, do tal jornalista. Do tal q sabia tão pouco, mas o suficiente para ter confiança. Do homem q falava tão baixo e no fim dos acertos lhe deu “boa noite”.
Além ‘nome e número’, a marca do A Tarde... metade; o resto cortado: “A Ta”. Cartão branco, sujo de preto e vermelho, caído, mas o Pablo ia usar. Usou, ligou e marcou explicando q era algo muito importante. De gente importante envolvida, de alguma influência e até ‘costas quentes’.
Na calada de uma noite escura (mui bem mais escura q todas as outras) encontrou-se o rapaz com uma cara sombria, de óculos e um guarda-chuva. Mirou uma nuvem no céu, o homem de olhar tenro e dirigiu-se ao Pablo. Senhor circunspecto, gestos comedidos, sereno e a princípio calado.
[ ... Numa noite da mesma semana em q se envolvera, o Pablo, no esquema ilegal: no tráfico de corpos, nas negociações: IML x Universidade Federal ].
Retomando: na calada de uma noite escura (com nuvem, sem chuva), os dois se encontraram. Na noite de lua tão branda, e de cheia tão branca, se cumprimentaram, / ao pé da ladeira do Paiva, onde o Pablo P. Paiva vivia com a velha. Mantido o contato, seguiram, não intermitentes, pra casa do mesmo.
Mais cedo, pois não receava a demissão forçosa pós-depoimento, em casa então chegara o Pablo com seu novo amigo, sem fazer barulhos.
A mãe, dona Martha, estranha o entrar sem as vozes q acusa o filho, quando chega e quando diz: “minha mãe, bote aí meu jantar preu num morrer de fome!”. E a Martha, sensitiva, eis q sente uma presença estranha, os passos dobrados. Enfim, diz o Pablo: “cheguei, minha mãe, tô com fome, cansado, quebrado”.
Mais calma, retoma o preparo da janta do filho q faz com prazer. Na sala a conversa começa com o Pablo perguntando o q o homem quer beber.
O senhor diz q ‘nada’ mas mais ‘positivo’ afirma: “adorei, jovem, a sua casa”. Comenta por ser um tanto antiga e por preservar ainda o estilo original, a fachada. Pergunta coisas fora do contexto e do tal pretexto q o levara ali. Natural e espontaneamente, Pablo diz q sente nela uma energia estranha, mas quis dizer ‘ruim’.
A mãe de lá pergunta se o Pablo lhe chamou, lhe falou alguma coisa, “¿o q disse?”. O Pablo diz q ‘não’ e explica ao interlocutor q a mãe, idosa, já mal consegue ouvir. / Às vezes diz q é meio doida, mas preferiu o ‘caduca’, quis ser mais discreto. Discreto também riu o outro, ante isso, com um olhar compreensivo (olhos semi-abertos). O homem disse não ligar, mas quis saber da Martha, mãe do Pablo Paiva; a Martha, mãe, já quase morta, enfim, o q ela achava da profissão do filho – o filho o informava:
O Pablo contou q a mãe já não entendia nada, ou quase nada “necas!”. Pensava era q o filho ia, todo santo dia, para um centro espírita. Q lá era q trabalhava almas incuidadas, almas não ‘passadas’. “Dizia e me diz ainda q eu sou um em muitos, q o meu dom é nobre”. O dom de ver os mortos “vivos”, de ver além das coisas, “q pra ela é sorte!”
O homem então pergunta sobre o curioso pássaro, lá detrás da planta. O Pablo atesta, é a grande prova de a mãe ser mesmo desequilibrada: “mãe cuida de um corvo preto feito um papagaio, um grande periquito”.
A Martha dessa vez ouviu... pensou ouvir ruídos vindos da TV. Mas a televisão omissa, escura, desligada, não quis nada dizer... O Pablo é q falava muito, bastante sobre isso, um tanto irritadiço:
“O certo é q de morto eu tudo vi já de algum jeito: homem, mulher; jovem, adulto; bonito, feio; magro, seco... De tudo, até bebê e velho, gente sem as pernas, me olhando rindo; de corpo crivado de balas, olho esbugalhado; misturados, juntos; com o maxilar arrancado, da cabeça o tampo, com o miolo à mostra... De início, vomitava e tudo, mas me afiz aos cheiros... quase pego o gosto. Nunca me disseram nada. ¡Nunca me disseram nada!”.
Sobre o filho, sem ser perguntada, dona Martha, lúcida, disse o seguinte: “Você, meu filho, na infância, sempre conversava com os ‘irmãos passados’. Você ajudou tantos deles, mas agora diz q não está lembrado. É pena, filho, isso era bom, pois muitas almas más você já libertou. As boas sempre o adoraram e você sempre teve um grande protetor. Liberta agora o “obsessor” q tá aí do seu lado e vem jantar, meu filho. Diga-lhe q vá em paz, lhe dê um ‘até mais’... o jantar está servido”.
O Pablo ouviu a mãe parado e quando olhou pro lado ainda viu um vulto. O Pablo q lembrou do corpo q transferira junto com aqueles restos... restos cadavéricos, peças de defuntos, roupas e “¡cartões!”, carteiras.
O Pablo q vê gente morta, hoje não transporta mais mortos nas macas. O Pablo q vê gente morta, foi trancar a porta e largou as drogas.

*Baseado em fatos reais.

**Conto de RAIAI! 4

13 Março 2006

Memória...


– ... Peraí q eu vou lembrar agora. Peraí q eu falo. ¿Como é mermo, rapaz? Tava na ponta da língua agorinha mermo. ¿Comé mermo o nome daquele bicho, bicho? Aquele miserave, briguento q só ele...
(...)
– ... Porra, eu não vou lembrar agora não. Pô véi! Dá uma raiva!
[Pausa longa, olhando pro nada. Enquanto isso, seu colega bebe mais um gole de cerveja, sem pressa. Ele não...]
(...)
(...)
– Edmundo, porra!!! – tapa na mesa; susto de um, alívio de outro. – O segundo foi dele... Evair, um a zero e Edmundo depois. 93. ¿Num falei q ia lembrar?

Quando as Periguetes se armam (Desencalhando Michelle)


Tombo na gravação do primeiro DVD da Calcinha Preta, no Parque de Exposições. Começa a conversa...
– Ô coisinho, vem cá. Desculpa ¿viu? ¿Cê se machucou? Foi mal. ¿Como é seu nome?
– Bruno.
– Pô, cê é bonitinho, ¿sabia?... Vem cá rapidinho q minha colega quer te conhecer. É rapidinho... / Michelle, Bruno. Bruno, Michelle – dois beijinhos.
– Prazer.
– Prazer é meu, mas eu já tenho q ir.
– Não, vem cá – chama o cara no canto. – Minha amiga disse q tá a fim de você, ¿e aí? ¿Dá pra rolar o esquema?
– Eu tenho namorada.
– Ah, é só uns beijinhos, rapidinho. Vá lá...
– Quero não. Posso não, sério.
– Ô coisinho, ¿por quê?... Ô, vá, vá!! Ô, vaí, só um beijinho. Des-da hora q você chegou q ela ficou falando de você... / Ó, o canal é esse: Eu mando ela ir p’ali pa trás agora... ela vai, aí cê segue ela ¿tá bom? Só uma colada e pronto, coisinho.
O menino se irrita:
– Não, rapaz! Minha namorada tá aqui também.
Ela também perde a paciência:
– Ih, minino! ¿Cê é bicha é? Vou chamar ela aqui então. Vem cá Michelle – acena para a amiga q estava um pouco afastada.
– Rapaz!... – ele.
– Anda menina! – ela.
– Aí ele, toma. Eu vou sair daqui e vocês dois se decidem.
– Não, não vá não – diz Michelle, como quem pede PPU.
– Oxe menina! ¿Cê é otária é? Beija logo!
– Eu já vou – avisa Bruno.
– Não coisinho, não vá não – pede, agora com voz dengosa. – Pronto, dê só um pitoque nela q eu paro de lhe perturbar.
– Não, não, nããão! ¿Não sabe o q é não, não?
– Ah, ¿cê não vai beijar não, Michelle? Então deixe q eu beijo...

Resultado da Operação “Desencalhando Michelle”: MISSÃO NÃO CUMPRIDA. (Um puxão nos cabelos pra largar o namorado dos outros e um tapa bem dado na cara, dado pela namorada em questão).
Conclusão: Quando as Periguetes se armam, o barraco também está prestes a ‘se armar’.

Quando os Putões se armam (Resgate de um bêbo tirado a corajoso)


Pagodão num domingo à noite qualquer de 2003, lá no fim de linha de Plataforma. Dois caras...

... Passa uma menina, passam o olho na bunda dela
Passa a outra, passam a mão no cabelo dela
Passa mais uma, eles deixam passar
É feia, tem nêgo ou é muito amarela
Deixam o bar com umas “Experimenta” na mão e voltam pro carro
Mas tem q se ligar pra não cair em nenhum esparro...
[Paro de rimar por aqui].
Aumentam o volume do “som” e o cheiro da gasolina chama as presas pra mais perto
Chegam e passam, passam e chegam, e os meninos ficam espertos
[Foi mal; não resisti. / Pronto, parei... Agora sim].


– ...Sim, ¿mas o seu nome é Ubiraleide ou Ubiraneide?
– Neide.
– Ah, e o pessoal lhe chama de Neide mesmo ¿né?
– Não. Me chamam de Bira.
– Ah, Bira. ¿E qual é o nome da sua amiga?
– Né amiga não. Ali é minha irmã.
– Sua irmã! Parece não.
– O nome dela é Ubiraiara.
– Ubirajara! Ubirajara é nome de homem, rapaz.
– Não. Ubiraiara, com “i”.
– E chamam ela de Iara ¿né?
– Não, chamam de Bira, também. Só q chamam ela de Bira Preta e eu de Bira Branca.
– Ah, (?!) entendi.
– Eu tenho q ir q Painho só deixou a gente ficar até umas dez e quarenta e cinco; dez e cinqüenta e cinco, no máximo. ¿Q hora é essa aí?
– Quí! Tá cedo ainda. Toma uma cervejinha aí com a gente... e chama sua irmã pra vir pra cá... [enche um copo]. Fala alguma coisa, Escobar! – diz, cutucando o amigo q estava quieto.
– ¿Escobar?!! ¿Por-um-acaso foi você q foi pra São Paulo por q passou no Exército? Acho q era Escobar mesmo o nome... Era Escobar ou Edmílson, sei lá...
– Não, foi ele mermo. A-e-ro-náutica! Brinque com Escobar, sacana! ¿Mas você já ouviu falar dele? – pergunta, estranhando. – A gente nem mora tão perto daqui, assim.
– Meu pai também é militar.
– ¿Ah é? Q mag(r)avilha! (...) Ô Bira, chama sua irmã pra vir pra cá também, ficar aqui com a gente.
– Ah, ela não vem não. Ela é toda envergonhada, toda criançona.
– Ôôô, ¿como é o nome dela mesmo? Ubira...
– Ubiraiara. Mas chame de Bira Preta q ela não gosta q falem o nome dela alto não.
– Ô Bira Preta! Bira!!... ¿Ela é surda é?
– Ih, ¿eu não falei q ela não vinha? Mas não ligue não, menino. Ela é abestalhada assim mesmo, de vez em quando. Ligue não.
– Escobar disse q tava a fim de se armar com ela. ¿E aí?...
Escobar se manifesta:
– Oxe! ¿Eu não tenho boca pra falar não é? Fique na sua q daqui a pouco eu vou lá.
– Ahn! Sai daê, seu Pangaré! Bufa-fria desses... Duvido!
– ¿Duvida de quem, rapaz?! ¿De mim?... Peraí q cê vai ver... vou lá intimar ela, na cara dura, só pra queimar sua língua... / E eu vou lá é agora, seu otário! – Escobar toma o último gole da cerveja, já quente, e vai, depois de se irritar com a alugação do amigo.
– Ih rapaz! Tá virando home mermo! Tirando onda de Putão, ó. Vá lá, seu chibungo, vá!
– Não deixe ele ir não, menino!
– Quí! Ali quando fica bêbo, fica dodio... Dodio, dodio, dodio! Nem adianta chamar.
– ¿É?
– É. (...) Sim, mas agora o negoço é nós dois aqui. ¿E aí? ¿Tá a fim de dar um rolé? Aliás, ¿por q você não chama sua irmã e a gente se sai de carro?... Vai nós quatro, assim, prum lugar mais tranquilo...
– Não. Meu namorado pode ficar sabendo.
– Ah, ¿cê tem namorado?
– Tenho... Mas ele tá viajando.
– Ah sim... então não tem problema – fala, meio encabulado, mas insiste. – Bora. A gente se sai agora e arma esse duque até dar o tempo de vocês irem pra casa.
– Não sei... Eu até posso ir, mas não sei se Preta vai querer não.
– ¿Por q ela não vai? Etá! Ela não deve ser tão tapada assim – pára por um instante quando se surpreende com o q vê acontecer um pouco mais à frente. – Vai sim! Ó pa lá. Ela já tá é se chupando com Escobar ali, enquanto nós dois fica aqui de boresta, sem fazer nada... [grita:] Chupa, Caetano!!!
– Mas ela...
– Já sei. Ela tem namorado também. ¿Mas o q é q tem? Cê também tem... Vá mainha, vá lá falar com ela, por favor – diz, com fala mansa e olhar meio torto, no final.
– Tá, mas...
– Mas ¿o quê?
– Eu acho q ela não vai querer ir não q ela tá esperando o namorado dela voltar, apesar de eu achar q ele não vem mais hoje aqui.
– ¿Voltar de onde?
– Não, é q teve uma confusão com ele e um cara ali no bar, nestante, agorinha mesmo.
– Sim, ¿e cadê ele?
– ¿Quem, o cara? Tá ali, ó.
– Não, o namorado de sua irmã.
– Aaah, eu não sei direito não. Eu só sei q rolou pau-viola porque parece q esse cara boliu com ela; aí Cesinha, o namorado dela, veio tirar pergunta a esse menino, aí, sei lá... parece q Cesinha tomou um pau na cara e foi embora pra casa. Acho q foi só isso só.
– Sim, ¿e por q ela tá esperando ele voltar?
– Não, eu não sei direito não q ela nunca me conta as coisas direito. Mas foi por isso q ela tava ali, triste, aquela hora. Acho q ela tava com medo de Cesinha ter ido em casa pra buscar a arma...
– Arma!!! ¿Q arma menina?!
– Ué, a arma. Do pai dele, ou do irmão, ¿quem sabe? [se assusta, de repente] Ih, eu acho q é ele q tá vindo ali, com a barreirinha de pivete q anda com ele. Já vi q o bicho vai pegar pro lado daquele menino...
– ¿Quêde?!!! ¿Cadê o home, rapaz?...
– Ali, ó. Aquele de blusa ver...
Larga Bira Branca falando sozinha e corre na direção do casal, q continuava se beijando.
– Escobar! Se sai, se sai!! Barriou!!! Se sai q é barril!!!
– ¿É o quê, rapaz? Se saia, você...

Resultado da Operação “Resgate de um bêbo tirado a corajoso”: MISSÃO CUMPRIDA. (Corre corre, ‘salve-se quem puder’ e um tiro na lateral do carro em fuga).
Conclusão: Quando os Putões se armam, ‘perna pra q te quero’!

* de RAIAI! 2

Indecisão em: O Plano II

Tonhe chega do colégio, larga a mochila encima do sofá e vai direto pra casa de Lu, contar o q pretende fazer pra resolver o problema do amigo. Lu, o amigo, ouve-o atentamente:
– Espie só... achei uma lá em Vilas q tem... Lá é chei de gente rica. Médico, advogado, engenheiro, tudo quando começa a ganhar dinheiro vai pra lá. Tem um colega de tio Nem q conhece um casal de advogados q mora lá, num casarão da zorra, mas q passa o dia inteiro aqui em Salvador, trabalhando. Essa casa é vizinha à casa q ele trabalha. Ele disse q dá pra pular de um quintal pro outro, facinho. Só q vai ter de arranjar um jeito de prender o pit bull de lá. Disse q isso é o de menos. É dos brabo, mas ele falou q já tem um pouco de intimidade com o cachorro, ¿eu vou fazer o quê? É com ele e a porra...
– Rapaz!!! – diz Lu, cheio de receio.
– Oxe rapaz! ¿Tá com medo de quê? ¿Né home não é?
– Naonde! Me dê sua irmã pra você ver.
– Peraê bicho! Deixe de furicagem. Ele disse q nesse final de semana agora, eles devem viajar pra um lugar aí... Diz ele q ouviu o patrão comentando. É melhor q dia de semana, ¿né não? De vez em quando, os dois deixam a chave lá mermo. Já tô sabendo de tudo. Se isso acontecer, é capaz de nós dois entrar pela frente, tirando onda. Ó paí! ¿Já pensou? – Tonhe dá uma gargalhada e um tapão na cabeça de Lu, q lhe questiona preocupado:
– ¿Cê conhece esse maluco daonde?
– Esse bicho é colega de tio Nem, ¿eu num falei? ¿Não lembra da época q tio Nem era caseiro também, lá em Arembepe? Nesses tempo os dois trabalhavam lá... em casas diferentes, óbvio.
– Rapaz!!!
– Ô meu irmão, a gente entra, faz o q a gente vai fazer e se sai, nas manha, sem deixar nem cheiro de peido, pra eles num estranhar. O cara já deu todas as garantias q não vai acontecer zorra ninhuma. Terminou, a gente sarta fora... e aí, só alegria! ¿Tá vacilando véi? Eu demorei um tempão pra convencer meu tio a falar com ele, depois q soube desse canal, pra você agora ficar dando pra trás...
– Lá ele! ¿Mas sábado... já? Se Mainha sabe q eu fiz uma maluquice dessas, ou ela me mata ou manda me internar... eu tô fudido! Ela nunca mais me deixa sair com você, sacana! Até hoje ela ainda é cismada contigo, por causa daquela bolacha q você tentou güelar no Q’Preço.
– Eu não! Nós. Num venha não! E foi por causa da sua nervosice q a gente se lenhou. Até hoje minhas pernas tem as marcas das lapiadas q eu levei daquele segurança safado... E acabei levando a culpa e me fudendo sozinho, ¿né? – bate com a mão esquerda aberta na lateral da outra mão, cerrada, olhando para Lu, q nada podia dizer. – Eu ia mandar meus irmãos quebrar ele no pau, mas depois eu deixei pra lá...
– Disse q aquele bicho é viado, ¿sabia? – comenta Lu, tentando mudar um pouco os rumos da conversa.
– Eu tô ligado. Encubadão ali, rapaz. Mas voltando ao assunto... Venha cá, ¿cê vai ou não vai pr’essa porra? Diga logo q eu já tô ouvindo Mainha me gritando... Rapaz, confie em mim... Não vai dar nada pra gente não. E esse maluco também deve conhecer os donos da casa. Ele não é otário. Nós dois é de menor... ainda tem isso. E esse negoço é bem longe daqui... se rolar alguma putaria, ninguém vai ficar sabendo de nada.
– Naonde! Duvido! ¿Do jeito q esse povo daqui é?
– Mas quem vai se lenhar né a gente não... é ele q vai se queimar, com os patrão e a zorra... por isso q eu tô confiando também... ele não ia fazer uma coisa dessas se não tivesse certeza q fosse dar certo, ¿entendeu? ¿E aí?... Umbora bicho! Ele disse q era preu ligar hoje de noite – nesse momento, pequena pausa com os dois olhando pro chão da sala, onde a gata, recém parida, dá de mamar aos três gatinhos q sobreviveram à sua tensão pós parto. – Eu já fui uma vez lá no Sesc Piatã, com tio Nem e esse maluco. Se não me engano, o nome dele é Morcego. Eu vi tio Nem chamando ele de Morcego – os dois riem e Lu diz: oxe! – Aliás, eu já fui foi duas vezes com eles.
– Não sei... sei não véi. Porra!! Perainda... Xô pensar...
Tonhe se reta e levanta pra sair.
– Peraí! É sério! – isso é Lu pedindo pra Tonhe esperar um pouco mais.
Ele continua muito indeciso e não sabe o q fazer ainda: “Porra, ¿vou ou não vou?” Lu cismava q com ele as coisas sempre davam errado. Mas ele queria tanto experimentar aquela emoção... “mas Mainha vai dar um jeito de ficar sabendo!” – pensou, voltando a si.
– Porra Tonhe...
– Ah, vá pra merda, vá! ¿Quem nunca tomou banho de piscina aqui, foi eu ou foi você? Já fui!


*Conto de RAIAI! nº 1

28 de Novembro de 2004, CORREIO DA BAHIA

João Gabriel Galdea se inspira no cotidiano para escrever seus contos
Vocação de escritor
Andreia Santana

João Gabriel: `Vivo correndo atrás de incentivo para publicar as histórias, quero reunir todos os contos dos cinco raiais num livro só´
João Gabriel Galdea tem 19 anos e cursa secretariado executivo por uma mera falha no preenchimento da inscrição do vestibular. Nascido e criado no subúrbio de Marechal Rondon, mora numa casa com a mãe, o pai, um irmão, uma irmã e os dois cachorros: Malvado - "que prefere ser chamado de Vadinho" -, e Perverso. No andar de cima, vivem duas tias, com os respectivos maridos e filhos. No meio dessa babel, em que se misturam cães latindo, irmãos competindo pela atenção dos pais e primos chorando, como um adolescente normal, que gosta de jogar bola, videogame e namorar, pode crescer saudável? Era de se esperar que João Gabriel despirocasse de vez. Mas em vez de ir esbarrar no sanatório ele transformou as cenas cotidianas da família em histórias. Sim, o cara escreve. E não é só o clã dos Galdea que serve de inspiração para os contos e crônicas do rapaz. No dia-a-dia da cidade, nas experiências de amigos e vizinhos lá de Marechal Rondon, ele também encontra farto material para encher as páginas dos livretos que vende, com a cara e a coragem, em bancas de revistas e jornais da cidade.
As letras, primeiro de música e depois as literárias, entraram na vida de Gabriel ainda na infância. Ele tinha oito anos quando já ensaiava umas musiquinhas de pagode e outras coisas do gênero, apresentadas nas festas familiares de aniversário, casamento e o que mais aparecesse. O palco era a casa dele mesmo e a platéia: a numerosa família. "Eu e meus irmãos fazíamos as apresentações. Fingia que cantava e o povo fingia que gostava".
Um dia, numa aula do cursinho pré-vestibular, João Gabriel, que é fã de Caverna do Dragão e Bob Esponja (sim, as duas preferências podem conviver na mesma criatura), leu um texto do escritor baiano Nivaldo Lariú. Pois a prosa engraçada do autor do Dicionário de Baianês inspirou o jovem aspirante a escritor a tracejar suas primeiras linhas. Freud e Luís Fernando Veríssimo fizeram o resto. Nascia, há exatos sete meses, o Raiai!, uma coleção de livretos em que as crônicas de João Gabriel, antes restritas ao seu diário, finalmente encontraram veículo de divulgação. "A intenção é incentivar o gosto pela leitura nos jovens", define o quase ex-adolescente que gosta de ler filosofia e só consegue ficar na internet no máximo 30 minutos por dia. Site de bate-papo então, nem pensar. "Mas eu gosto muito de conversar, só que prefiro fazer isso pessoalmente".
Cruzada literária
A idéia é publicar cinco raiais. O nome dos livretos se refere àquela expressão tipicamente baiana, uma corruptela do ai ai. Por enquanto, João Gabriel, na base do `paitrocínio´, só conseguiu publicar os três primeiros. Os livretos são bem simples, em preto-e-branco, xerocados e vendidos em regime de consignação em algumas bancas de revista amigas. Cada um sai por R$1. "Vivo correndo atrás de incentivo para publicar as histórias, quero reunir todos os contos dos cinco raiais num livro só", conta o jovem que ainda não se cansou de ouvir diversos nãos e continua persistindo atrás do sonho de ser um escritor conhecido.
Além de escrever os contos e crônicas, João Gabriel manda textos seus pela internet, seja para sites que divulgam jovens autores ou para e-mails de conhecidos e até de desconhecidos. É bem provável que alguém já tenha deletado algum texto seu da caixa de entrada, pensando que era spam, mas ele segue na cruzada literária.
Na tentativa de conseguir leitores para os seus livretos, vale colar cartazes em ônibus, fazer panfletagem e estender faixas em locais públicos como shoppings, bibliotecas e escolas. "Sempre tem um segurança para mandar sair, o negócio é ir para outro lugar e ficar tentando. Já fui para a sinaleira também, na Paralela, mas não deu muito certo".
Com a cabecinha fervilhando de idéias, o cronista de Marechal Rondon, junto com o amigo e poeta Jemes Martins, fundou uma banda de poesia e já fez recitais no Cabaré dos Novos (Teatro Vila Velha), em bares do Pelourinho e no Cefet, onde estuda turismo. "No Cefet eu sou conhecido. Não sei se o povo todo de lá que me conhece já me leu, mas ouviram falar de mim. Aliás, muita gente vai ouvir falar de Jemes Martins também", enfatiza, puxando a brasa para a sardinha do amigo.
De verdade verdadeira mesmo, João Gabriel Galdea queria ser jornalista. Mas no ano de se inscrever para o vestibular ele foi participar do concurso Popstars, da rede de televisão SBT. Como foi aluno da rede pública a vida toda, primeiro no Pinto de Carvalho e depois no Colégio Pedro Ribeiro, ele tinha direito à isenção da taxa de inscrição. Mas na hora de preencher a papelada, a mãe de João, que não sabia da intenção dele de prestar vestibular para comunicação, tascou secretariado como primeira opção na ficha. "Bom, estou fazendo o curso e vou tentar vestibular de novo para jornalismo".
Além de escrever e trabalhar na divulgação dos próprios escritos, João Gabriel leva uma vida normal, igual de qualquer jovem da sua idade. "Por favor escreva aí que eu gosto de namorar, senão minha namorada me mata". O quase ex-adolescente - ele vê com um certo terror a chegada dos 20 anos - está agora trabalhando na história de um super-herói totalmente baiano, que ao invés de ser fotógrafo, como o Homem-Aranha, ou repórter, como o Super-Homem, é vendedor de picolé e tem como informantes as baianas de acarajé e os vendedores de chocolates das ruas da soterópolis. O herói de João é um cara comum, igual a ele e a tantos outros meninos talentosos que vivem escondidos sob a identidade secreta de um adolescente de subúrbio.

09 Março 2006

Raiai! Histórias do Cotidiano de Salvador

Release dos livretos em 2005/2006

Escrita por João Gabriel Galdea, jovem de 21 anos de idade, do bairro Marechal Rondon, subúrbio de Salvador, a série de Livretos RAIAI! chegou à sua Quarta Edição, distribuída ainda de forma amadora, sem patrocínio nem apoio de qualquer empresa ou instituição.

Vendidos à mísera quantia de R$ 1,99 (preço sugerido), em algumas bancas do Centro da capital baiana, o projeto visa criar ou despertar no jovem soteropolitano o hábito da leitura, além da popularização do chamado “livreto”, maneira muito barata de difusão da cultura e tradições populares, assim como da literatura marginal de boa qualidade.

PONTOS DE VENDA*
LOJINHA DO TEATRO VILA VELHA, Passeio Público, CAMPO GRANDE
BANCA POP, ao lado da Faculdade de Economia, na PRAÇA DA PIEDADE
BANCA Sr. DO BONFIM II, pertinho do Bompreço, no CANELA

*Cerca de 500 exemplares das 4 edições da série foram vendidos em Salvador. Os livretos não estão mais disponíveis nas bancas indicadas. Ou seja, quem tem, tem; quem não tem, não pode ter. Algumas histórias, de tão grandes, não serão postadas aqui na net, ficando portanto exclusivas para os donos dos livretos. Guardem com carinho. (JGG)